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O País das Maravilhas em Alice

Hoje fui assistir Alice. Minha segunda experiência em cinema 3D, depois de Avatar. Sentei  confortavelmente na poltrona, coloquei os óculos, esperei os trailers. Prendi a respiração quando o filme começou, como se eu entrasse na minha Wonderland pessoal: a minha suspensão da descrença. 

A verdade é que eu não entendi as críticas negativas ao filme. Não entendi as frases que li no Twitter denunciando um roteiro vazio. O filme é cheio, do começo ao fim, cheio visualmente, cheio textualmente. 

Tim Burton é um diretor autoral, um artista, faz questão de deixar a sua marca por onde passa, de criar suas Wonderlands, talvez ele prenda a respiração por alguns segundos antes da gravação de cada cena: a suspensão da descrença dele.

Eu nunca li Alice em livro, e essa não é uma prerrogativa para o cinema de “adaptação” (que eu prefiro chamar de traduções intersemióticas). A Alice de Burton não é a Alice de Carroll, isso fica bem claro na brincadeira metalinguística ainda na primeira parte do filme. O Chapeleiro Maluco diz “você não é totalmente Alice” (em inglês, “You’re hardly Alice”). “Você é malmente Alice.” Ela não é a Alice que era antes, nem uma imitação da Alice de antes, ela é a Alice presente, ali.

O filme não é o texto. Alice no País das Maravilhas, de 2010, não é malmente a Alice no País das Maravilhas, de 1865. Amigos que me acompanharam ao cinema, que leram o livro, confirmaram inúmeras referências ao livro, o que é bastante natural; é o elo que ligou a “malmente Alice” a “Alice”, a ponte da anterioridade: do século XXI, com sua tecnologia ubíqua, com o século XIX, com sua tecnologia já em franco desenvolvimento.

Além disso, a estrutura narrativa do filme é preciosa. A repetição do monomito do herói, o que me remete imediatamente ao trabalho do mitólogo Joseph Campbell. E talvez esse seja outro ponto franco de crítica para a maioria: os clichês. Mas sinto informar, o clichê também alimenta porque, não se esqueça (nem dentro da sua suspensão da descrença): “Você é malmente a Alice”; em toda repetição há uma diferença. 

Do começo ao fim o texto, ali em 3D na tela grande, dialoga com os estudos do caminho do herói de Campbell:

A partida
Obivamente quando Alice, já na carruagem, parte para o encontro do qual ainda não tinha conhecimento.

O chamado
Quando já no jardim conversa com a mãe do seu futuro marido e, “distraída”, enxerga um coelho no jardim.

A recusa do chamado
Quando ainda não acredita no que vê, questiona-se maluca, mas persegue o coelho mesmo assim.

Auxílio sobrenatural
Quando volta ao pátio para as obrigações sociais e, num momento de desespero, finalmente entende o chamado do coelho e parte em fuga, ou melhor, para a aventura.

Passagem pelo limiar
Quando desce pela toca nas raízes da árvore. 

Ventre da baleia
Quando cai no buraco e desce aos confins de si mesma, deslocada entre dois mundos, voltada para si.

As provas
Quando precisa saber lidar com o novo cenário, já dentro de si: é preciso fazer escolhas, é preciso continuar em frente, além do destino.

Encontro com a Deusa
Aí numa ocorrência polar entre as duas rainhas: a vermelha e a branca (superego e ego), duas faces do mesmo arquétipo.

Apoteose
Quando chega, finalmente, ao castelo da rainha branca e escolhe ser a heroína de fato.

Bênção última
Munida da espada vorpal, assumindo seu papel, sua vontade, e sendo apoiada.

O retorno
Quando, enfim, cumpre o papel que escolheu no País das Maravilhas, mata o dragão (outro arquétipo do Ego importante) e fecha sua iniciação, seu destino escolhido.

Fuga mágica
Quando a rainha branca colhe o sangue do dragão e diz-lhe que agora ela pode decidir voltar para casa.

Limiar do retorno
Alice sai das raízes da árvore, “malmente Alice”, iniciada, renascida.

Senhor dos dois mundos
Quando a marca do ferimento que ela recebeu do monstro continua em sua pele, ainda que ela tenha voltado para “o mundo real”. Alice já não é parte de nenhum mundo e é parte dos dois mundos.

Liberdade para viver
Alice subverte as convenções sociais, o próprio destino escolhido para ele por outros, e decide tomar de volta as rédeas de suas escolhas fora do País das Maravilhas e, ao mesmo tempo, transforma o “mundo real” no seu País das Maravilhas. O mundo interno exterioriza-se.

Por tudo isso, fica claro que Tim Burton apropriou-se do texto de Lewis Carroll para suplementá-lo (adicionar mais ao que não falta). Sem entrar em discussões fantasiosas sobre intenções autorais, Burton quis criar uma Alice sua, uma história sua, bebendo da anterioridade dos livros, mas deixando tanto no texto quanto na técnica a bandeira de não estarmos mais no País das Maravilhas, mas de estarmos no século XXI, de um cinema sendo reinventado em 3D. 

Quem criticou o filme apenas fazendo comparações polares entre livro e filme não conseguiu enxergar o coelho de casaca. Esses mesmos nunca encontrariam a toca para entrar dentro de si.

Alice no País das Maravilhas é um filme, finalmente, “alegre” do Burton. Ele deixa uma mensagem final não só de transformação, de superação, mas de reinvenção e possibilidades (que, em certa medida, é marca do nosso tempo).

No mundo onde as gerações de 90 e as atuais se enxergam perdidas em um mundo tão vasto e diminuto ao mesmo tempo, por conta das tecnologias, excesso de informação, dificuldade em decidir seus próprios futuros, Burton assinala a importância da responsabilidade por suas escolhas e a maravilha que é escolher, voltar-se para si, ouvir-se e, sobretudo, agir.

As lágrimas surgiram durante o filme, simplesmente porque a suspensão da minha descrença foi desarmada por uma crença nas possibilidades que temos todos os dias: de escolher e de enfrentar as consequências de nossas escolhas. Essa foi a minha leitura do filme, de infinitas possíveis.

Saí da sala de cinema malmente Ernesto.

ATUALIZAÇÃO 2 (03/05 às 12:39h): Outra crítica favorável e muito bem argumentada do Arnobio Rocha: “Será que você é mesmo Alice?”.

ATUALIZAÇÃO (27/04 às 0:21h): A discussão sobre Alice ganhou outras paragens e pulou pro Facebook e do Facebook pro blog da Ana Rüsche, muito bom.

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  • 1 ano atrás
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Avatar Ernesto Diniz, Diretor de Criação e mestre em Língua e Cultura (Tradução Intersemiótica) pela UFBA. Keywords: Semiótica, Memética, Transcriação, Arte, Social Media, Design, Tecnologia, Macumba Celta.
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